Este texto é o depoimento pessoal de um autor convidado
Eu nunca vou esquecer da despedida de meus professores. Num dia de 1976, no segundo semestre, a professora de inglês fez a chamada e ao invés de dar matéria, contou-nos que a Assembléia Legislativa havia eleito Paulo Maluf para o governo do estado numa sessão histórica, vencendo o candidato oficial da ditadura Laudo Natel. Disse que com ele no governo seria impossível continuar lecionando, que ele prometia acabar de vez a com categoria. Segundo ela, vários professores já haviam dado entrada em suas aposentadorias, outros simplesmente mudariam de profissão, e ela não se renovaria, pelo menos como vinha acontecendo até aquele momento. Dias depois, foi a vez de a professora de matemática falar o mesmo, que quando ele assumisse, seria impossível viver com os parcos salários que receberiam dali a três anos.
Para os americanos, era inadmissível um novo Japão ao sul do equador, no caso o Brasil. Foi por isso que o Ministério da Educação e Cultura e a Unites States Agency for International Development firmaram em 1967 o Acordo MEC-USAID. O sistema educacional brasileiro, instituído com a República para desenvolver o país a longo prazo, apesar de imperfeito e longe de ser universal, mostrou-se extremamente capaz de o promover desde que se deixasse politicamente, o que, de fato, não ocorreu. Os grupos escolares, ginásios e colégios do estado, eram onde a população urbana emergente matriculou os filhos durante as oito primeiras décadas do século XX para terem aula com um magistério preparadíssimo intelectualmente e bem remunerado. Os professores tinham os mesmos vencimentos dos juízes de paz, recebendo pela atribuição de educar a infância e a juventude para contribuírem na vida madura com a máquina promotora, produtiva e administrativa do desenvolvimento. Para os impedir, o MEC-USAID cravou os dentes e feriu de morte o ensino brasileiro.
Assinado pelo então ministro da Educação, o coronel Jarbas Passarinho, o Acordo pretendeu neutralizar o potencial emancipador do ensino brasileiro tornando-o “técnico” e, sobretudo, mudando o estatuto do magistério da rede pública transformando o professor num horista mal remunerado. Eleito governador, Maluf declarou sua intenção de aplicar as determinações do Acordo MEC-USAID no ensino público de São Paulo. E assim que o fez, levou o pânico à categoria dos professores, os quais decidiram pelo abandono da carreira, como nos relatara a professora de inglês.
Empossado em março de 1979, em outubro Maluf assinou o decreto estadual
no. 10.378, o cumpra-se das determinações do Acordo, resultando em cortes em média de 90% no valor dos holerites de um mês para o outro, proletarizando do dia para a noite os professores da rede pública. Nas viagens do “governo itinerante” país afora, Maluf levou a boa nova a outros governadores que, paulatinamente, arrasaram com seus respectivos magistérios estaduais. De nada adiantou a gigantesca greve dos professores na primeira metade daquele ano; nada impediria a ditadura, já cumprindo aviso prévio, de bater o último prego no caixão do desenvolvimento soberano, inviabilizando-o intelectualmente.
Melancólico foi o fim daquela época excepcional para o magistério brasileiro, os quase noventa anos entre 1892 e 1980, quando Sérgio Buarque de Hollanda, Milton Santos, Domingos Paschoal Segalla, Oswaldo Sangiorgi e outros desse quilate em início de carreira lecionaram no ensino público para crianças e jovens, provendo-lhes educação de alto nível e podendo constituir família e criar os filhos com dignidade. É célebre o caso do escritor Graça Aranha, que despontou para a literatura brasileira com o relatório que, diretor de escola pública primária em Palmeira dos Índios (Alagoas), enviou à secretaria estadual da Educação, e chamou a atenção das autoridades pela qualidade e pela profundidade de seu texto. E, mais triste ainda, foi perceber que, de fato, foi o fim de uma era, pela forma como de uma hora para outra se extinguiram verdadeiras dinastias de professores, pois no rebuliço daqueles tempos de velozes e confusas transformações na sociedade brasileira, poucos se deram conta da profundidade do estrago que se estava causando ao país.
Quando emergiu o sindicalismo na política nacional, não se manifestou interesse em defender o que passou a ser visto como um privilégio de uma minoria. Assim, quem continuou na carreira ou continuou a ingressar nela, passou a contar antes como uma suculenta fatia da força-de-trabalho agora mobilizada numericamente como massa crítica para desencadear processos paredistas de reposição de perdas em épocas de dissídio da categoria, de um percentual num contexto de corrida permanente contra a inflação galopante. Ou seja, ninguém se importou com a sorte do magistério, uma vez que o que se fez contra ele era “invisível” e os professores continuavam lá nas escolas, todos os dias, para lecionar, sem que isso afetasse perceptivelmente sua relação com os alunos.
Embora o Acordo MEC-USAID tivesse atingido em cheio a educação com a proletarização do magistério e o conseqüente desinteresse em lecionar que tomou conta dos estudantes, estava comprometida “apenas” a capacidade de qualificar específica do ensino. Restava ainda a cultura, o campo no qual ele semeava e do qual ainda se era capaz de obter resultados apesar do aviltamento do ensino. A morte da cultura brasileira ocorreu dois anos depois, em 1981, quando entrou no ar o “Sistema Brasileiro de Televisão”, o famigerado SBT, levando aos lares brasileiros mundo-cão, putaria e prêmios, liberando e escancarando sem peias uma linguagem chula e grosseira que o ensino pré-Maluf procurava conter e erradicar. Com o surgimento do SBT e a atmosfera enlouquecedora de algazarra permanente que passou a instilar no imaginário de sua audiência, ficou impossível se mobilizar a população para qualquer coisa que exigisse atenção e paciência, tornando inútil, embora não descartável, praticamente todo o aparelho educacional brasileiro, público e privado. Daí por diante, passou a dominar nas escolas a ficção didática que hoje tão bem se consubstancia em práticas como a “progressão continuada” – sinal inequívoco que os professores fingem que ensinam e os alunos, que aprendem –, na incapacidade dos brasileiros em entender a própria língua que falam, na violência contra os professores e as instalações que dominou os ambientes escolares, nos desastrosos índices de rendimento escolar dos brasileiros e na atual necessidade de se “importarem” engenheiros para tocar os programas de “desenvolvimento” que se procura aplicar no país.
A indigência cultural em que o país foi atirado nessa ocasião foi habilmente aproveitada por políticos de todo o espectro. Por ter se tornado incompreensível para a maioria, a política fundada nas instituições da sociedade civil transformou-se num populismo representativo ora barato, de resultados, ora num populismo esclarecido, em que a massa é seduzida pela possibilidade um tanto vaga de participar das decisões que lhe dizem respeito, manipulada por lideranças que lhe são o norte político a ser seguido em busca de uma utopia enganosa. A massa, agora desinformada, tornou-se presa fácil de lideranças políticas ávidas ou de resultados imediatos ou de uma mobilização de longo prazo para a consecução de interesses, em ambos os casos, hostis aos padrões clássicos de desenvolvimento econômico e social. E não há nada capaz de reverter a tendência de se fazer muita política com a massa sem o preparo cultural necessário ao nível de decisões que se precisa tomar em uma sociedade complexa como a atual.
E ninguém nunca mais se preocupou efetivamente com a sorte dos professores brasileiros. Os professores universitários, do alto de seus compromissos com o establishment ou com o aparelho produtivo têm mais com que se preocupar do que professores do primário, ginásio e colégio. Os próprios estão completamente comprometidos com suas lideranças sindicais e seus interesses. Os estudantes, uma geração depois dos atos nefandos de 1979\1981, conhecem a história recente de segunda mão e, estrategicamente desinformados, mostram-se insensíveis aos problemas da educação não universitária, talvez porque essa não tenha o glamour e a visibilidade da superior devido a seus resultados muitas vezes espetaculares. Por isso mesmo, limitam-se a comer na mão dos proprietários da utopia, os “romântico-revolucionários” dos anos 1960 e que hoje realizam seu sonho de ser governo, nada fazendo pelo restabelecimento da educação e cultura libertárias no país, evitando riscos a seu status.
Pode-se até demolir o Minhocão e repatriar dos paraísos fiscais todo o dinheiro que Maluf desviou para aí. Mas, o estrago que causou para o país há três décadas ao impor o
MEC-USAID e reduzir à indigência o magistério público – depois o privado – provavelmente jamais será reparado e o Brasil continuará em linha reta rumo a seu destino histórico de colônia perfeita, a primeira organizada pela alta finança internacional ainda no século XV, atualmente para abastecer e divertir o mundo e nada mais. E nada vai ser feito para evitá-lo porque o compromisso dos que hoje governam é contrário ao desenvolvimento soberano do país. Uma de suas especialidades é administrar a decadência do Brasil sem educação e cultura, algo inconcebível para mim que havia tramado um plano infalível para ser transferido para o Alarico Silveira, o incrível colégio estadual em que eu estudava quando um belo dia os professores vieram se despedir de seus alunos.


